terça-feira, 20 de novembro de 2012

Mais um flash da série: Isso tudo é mais compelxo do que se Imagina! - Michel Gherman



Entro na universidade Hebraica de Jerusalém e a caminho da Biblioteca esbarro com uma banca do Grupo "Luta Socialista", organização majoritariamente judaica de tendência trotskista, seus integrantes gritam: "Contra a Guerra de Bibi e Hamas, Luta Socialista, a alternativa verdadeira para as eleições".

Continuo caminhando, banca do Partido Comunista, banca mista, com estudantes árabes e judeus. Uma Placa em hebraico e árabe que diz: "Fim da guerra no sul, fim da Guerra em Gaza."

Já na entrada da Biblioteca, uma manifestação ruidosa, dividida ao meio por grades. De um lado, estudantes árabes (pelas meninas presentes nota-se que se tratam na maioria de Muçulmanos religiosos) e judeus (também na maioria religiosos). Ambos mostram fotografias de destruição e gente morta. Ambos acusam os líderes do lado oposto de criminosos. Pelas músicas cantadas, nota-se que é um encontro dos extremos. A extrema direita israelense e os fundamentalistas islâmicos (extrema direita palestina).

A notar:
1) A maioria dos estudantes, árabes e judeus, passa e decide não participar da Manifestação.
2) as ausências ativas de militantes da esquerda, de centro esquerda, da centro direita até da direita.

Quem tem certeza aqui, a ponto de gritar em uma manifestação, mostrando cartazes e cantando, são as extremas direitas em ambos os lados.

E você aí, que lê esse relato e está no Brasil, onde se encaixaria?

Queridos todos, guerra na tv e eu antes de ir estudar pensando. - Michel Gherman



Minha oposição a este governo de Israel vem de seu projeto político, com 3 pontos: uma ordem econômica que está recheada de desigualdades sociais e econômicas, perigosa deslegitimação de grupos internos da sociedade israelense (que pode apontar para uma estrutura autoritária) e também a incapacidade ideológica e estratégica de chegar a acordos com palestinos.

Agora, depois de mais de 1000 foguetes do Hamas, TODOS CONTRA ALVOS CIVIS ISRAELENSES (INCLUSIVE ALVOS COM POPULAÇÃO MAJORITARIAMENTE ÁRABE, COMO O CASO DE YAFO), penso que concentrar críticas ao governo de Israel e as suas últimas decisões, é um erro estratégico, esse "casamento", entre Bibi-Liberman e Hamas, tem que ser criticado dos dois lados. 

O Hamas tem um governo em Gaza, com perspectivas políticas claras: é um governo de um grupo fundamentalista, que tem como parte de sua estratégia, não somente o fim do Estado de Israel, mas a deslegitimação de grupos palestinos no interior de seu território.

Sabem, me lembrei disso quando vi agora a visita do presidente do Egito a Gaza, escutei o discurso de Ismail Haniyeh pedindo apoio do Fatah e dos palestinos da Cisjordânia. Me lembrei que apesar de eleito nos Territórios Palestinos em 2006, O Hamas deu um golpe sangrento em Gaza em 2007, onde matando vários de seus opositores do Fatah em Gaza, e expulsando outros conseguiu controle total de Gaza e o fez com alianças pontuais com grupos a sua direita, Sahalafitas e o Jihad Islamico Mundial.

As vítimas desses governos, no caso de Gaza, podem ser israelenses hoje, mas antes já foram outros e outras, em seu próprio território. Enfim, vejam que enquanto os foguetes caem aqui e lá, os coitados somos nós, Israelenses e Palestinos. Já os vencedores... por enquanto são eles.

Todos se acusam e se agridem. Ninguém fala em paz - Marcos Gorinstein



Depois de sete dias de conflito entre Israel e o Hamas, mais de 1000 mísseis atirados contra Israel (inclusive alguns vindo de solo Egípcio), mais de 1000 bombas atiradas em território palestino e tristes e rasas declarações de apoio de ambos os lados (o facebook está uma tristeza!!!), resolvi escrever algo.

Nessa última semana as respostas não poderiam ser piores. Os apoiadores da missão militar Israelense, geralmente de direita, publicam fotos, vídeos e comentários que vão de mal a pior. Defendem uma ampliação da operação em Gaza, o que vai gerar um maior número de mortos do lado palestino.

Os que defendem os palestinos, geralmente de esquerda, publicam, também, fotos vídeos e comentários comparando o Estado de Israel à Alemanha nazista, acusando-o de promover um massacre na região costal palestina.

Sabe o que mais me chama a atenção? Nenhum dos lados fala em PAZ. Na última sexta feira eu estava em casa quando a sirene tocou em Jerusalém. Não precisei correr muito, entrei no meu quarto (que é o bunker da casa), fechei a porta e a janela e esperei a bomba cair. Pra minha sorte e para a sorte de outros 500 mil judeus e 300 mil árabes a bomba caiu em um terreno aberto fora de Jerusalém.

No sábado eu fui a uma manifestação em Beit Jala, vilarejo árabe na Cisjordânia Ocupada perto de onde a bomba caiu. A manifestação que contou com cerca de 200 participantes foi organizada pelo movimento Combatentes Pela Paz, onde militantes palestinos e israelenses, com suas bandeiras nas mãos (e não armas e bombas), pediam o imediato fim das agressões de ambos os lados, a volta imediata à mesa de negociações e a construção do Estado Palestino nas fronteiras de 1967. Me chamou a atenção a enorme quantidade de jovens palestinos que participaram do protesto. Jovens que não serão sugados por movimentos terroristas islâmicos.

Assim, companheiros da esquerda, eu gostaria de dizer que a repetição rasa e vazia de slogans e bandeiras que já não são relevantes para a realidade atual do conflito, bem como o apoio incondicional ao fundamentalismo islâmico que ameaça o povo palestino, deixam a esquerda pacifista israelense mais isolada ainda.

Internamente somos isolados por uma política que ameaça a democracia e externamente somos isolados por vocês. O Estado de Israel é tão importante quanto o Estado Palestino. O valor da vida de israelenses judeus e não judeus é tão importante quanto o valor da vida de palestinos.

O desequilíbrio do discurso da esquerda beira o racismo. É fundamental que a esquerda refaça a discussão sobre o conflito palestino-israelense, sem preconceitos, sob o risco de se tornar refém de uma análise fundamentalista islâmica típica de movimentos como o Hamas.

A crítica ao Estado de Israel deve acontecer, ao governo atual é imperativo moral que critiquemos juntos, porém se recusar a criticar o Hamas é escolher o lado errado.

Vou continuar por aqui, dentro ou fora do bunker, acreditando ser possível um diálogo franco com a esquerda e com os palestinos. Lutando pela paz, pelos Estados de Israel e Palestina laicos e democráticos, vivendo lado a lado.

Chega de análises vazias e reproduções automáticas. Lutemos pela paz, por um mundo melhor.

Quem está usando quem? Uma análise da escalada da violência entre Israel e o Hamas e suas consequências - Por Marcos Gorinstein



Quem está usando quem? Uma análise da escalada da violência entre Israel e o Hamas e suas consequências

As avaliações a cerca do início do conflito dizem que tudo começou com o ataque de Israel ao carro onde se encontrava o líder militar do Hamas, Ahmed Jaberi, em gaza. Porém é preciso ir um pouco mais longe para se entender a escalada de violência a as relações de poder envolvidas nesse evento.

A Primavera Árabe vem enchendo o Oriente Médio de dúvidas e incertezas há quase dois anos. Diversos países mulçumanos vêm passando por mudanças políticas que, para além das relações entre ocidente e oriente, transformam a histórica disputa entre mulçumanos sunitas e xiitas, fator que levou a carnificinas em guerras como Iran-Iraque, massacres dentro do Iraque, Síria, Líbano, entre outros.

Esse realinhamento ocorrido com a primavera árabe, não podia deixar a palestina de lado. Os árabes residentes na Palestina Ocupada e em Israel são de origem sunita, o que ajuda a explicar o descaso histórico de povos xiitas pela sua causa.

Contudo, recentemente, na última semana de outubro, Israel foi acusado de explodir, em um ataque aéreo ainda não esclarecido, um depósito de armas no Sudão[1], que supostamente forneceria armas para o Hamas e outros grupos fundamentalistas da região.

Soma-se a isso, no mesmo período, a visita à Gaza de uma das maiores personalidades do reacionarismo mulçumano, um dos Sheiks do Qatar, Hamad bin Khalifa al-Thani,, de origem Sunita, que também reprimiu a população do seu país quando esta tentou sair às ruas e entrar no movimento pela Primavera Árabe. A comitiva do Qatar que visitou Gaza ainda contou com a presença do primeiro ministro do país do Golfo Pérsico. Foram doados $400 milhões ao Hamas.

Desde a explosão da fábrica no Sudão os foguetes começaram a ser lançados de Gaza colocando em risco mais de um milhão de cidadãos israelenses que vivem a poucos quilômetros de Gaza. Ironicamente, as primeiras vítimas fatais do evento (se há algo de irônico nisso!) foram três trabalhadores tailandeses que moravam na região e sua casa foi atingida por um míssil do Hamas.

O estopim foi a divulgação do um vídeo feito pelo Hamas mostrando o momento em que um jipe do exército de Israel era atingido pela artilharia de Gaza, deixando um soldado morto e outros três feridos. No dia seguinte a isso, Israel assassina o líder militar do Hamas.

A partir daí já sabemos as consequências. Mais de mil mísseis atirados contra Israel e repetidos ataques aéreos israelenses visando destruir arsenais do Hamas. Vítimas, principalmente civis, são contadas dos dois lados.

Mas a quem interessa o atual conflito?

Em menos de três meses acontecerão eleições em Israel. O atual governo de extrema direita antecipou as eleições achando que poderia conseguir maioria no parlamento, facilitando a construção de uma coalisão onde os religiosos ficariam de fora ou exerceriam uma influência quase nula. Com o passar de dias foi ficando claro que a vitória da direita não seria tão ampla. Há um campo de centro esquerda que poderia colocar em risco a dita maioria absoluta da direita.

Concomitantemente, o governo do Fatah, que controla a Cisjordânia, tentará um upgrade do status da Palestina na ONU. Seria considerada membro porém sem direito a voto. O interessante disso é que esse upgrade permitiria que líderes israelenses fossem processados internacionalmente por crimes de guerra contra outra nação, deixando políticos e militares israelenses em uma situação bem desconfortável. Isso seria uma enorme vitória para o Fatah de Abbas e uma enorme derrota para o Hamas.

Assim, a escalada de violência em Gaza era tudo que o Hamas e a extrema direita israelense queriam. Do lado palestino, o Hamas, através de sua propaganda (que inclusive já divulgou em Gaza que haviam acertado o Knesset o parlamento Israelense), volta a ser o bastião da resistência palestina. Passam a responder frente ao governo de Israel para um possível cessar-fogo. Já o Fatah, na Cisjordânia Ocupada, fica imobilizado.

Do lado israelense o governo de Bibi Netanyahu e Avigdor Liberman usa de sua estratégia mais nefasta para garantir a vitória nas próximas eleições. Ouvir sirenes e correr para abrigos não é algo agradável e a população vai apoiar a guerra.

Conclusão: Hamas, Netanyahu e Liberman jogam do mesmo lado. Não querem paz. Não querem dois Estados. Não prezam pela vida. Dizer não à guerra é dizer não ao Hamas, ao Likud e ao Israel Beiteinu.

Deixo aqui minha solidariedade a todo o povo Israelense e Palestino que vêm sofrendo há anos com a política de seus governos que não garante segurança e sim guerra e destruição.


[1] Importante ressaltar que o Sudão é um país de maioria sunita que vem massacrando minorias não islamizadas ao sul do país na tentativa de promover um governo islâmico da região. Ressalta-se que na tentativa de proteger a população massacrada a ONU decidiu por criar uma região autônoma ao sul do país, o Sudão do Sul.